Hoje é domingo.
Meu único dia nosso.
E eu queria sair cedo para andar de bicicleta contigo.
Mas acordamos as nove e já era tarde para um passeio assim.
Então eu queria ir naquela exposição e depois naquela outra.
Mas tomamos um café demorado e já era tarde.
Depois, deitamos de novo na cama, porque eu me
sentia cansada. Começou a garoar.
Eu li todo o jornal.
Ficamos com preguiça.
Passaram algumas outras horas e quando vi
meio domingo já havia ido embora.
Eu queria ir ao cinema, `as exposições,
passear pelo Bexiga, visitar seu avô.
Fazer tudo sem pressa, editar nosso filme,
ouvir um concerto mas todos começaram as onze
e nós os perdemos.
Queria almoçar em casa mas a nossa cozinha
parece intransitável aqui, agora.
Foi então que comecei a chorar.
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Sunday, August 23, 2009
Wednesday, August 12, 2009
Saturday, August 08, 2009
Ai, ai, aiai... Tá chegando a hora!
Já faz tempo que penso como é ter 30.
Desde os quatorze.
Mas nunca estive tão próxima de completar
esta idade. E agora que a data se aproxima, vejo
quanta bobagem já foi dita. Especialmente por mim.
Não acreditem em mim.
Sou volúvel. Absolutamente.
Terça feira, onze; é meu aniversário.
Não tenho vontade de festa, não tenho vontade de nada.
Quer dizer, tenho `as vezes, mas passa.
Sinto uma enorme preguiça.
Não dos amigos. Mas da função que é fazer aniversário.
Apagar a velinha. Atender a todos aqueles telefonemas,
abrir os presentes, gostar dos presentes, agradecer os presentes,
agradecer por terem vindo, fazer marmita de bolo para os mais
íntimos levarem calorias para casa, desfazer-se de todas as embalagens...
Meu Deus! Tragam-me os presentes sem embrulhar dessa vez!
Por que? Não achem-me mal humorada,
apesar de merecer este título de vez em quando.
Mas, não sinto que nenhuma mudança deva ser celebrada.
Só a da lei anti-fumo!
De resto, não mereço palmas, bexigas, e já sei bem com quem será
que vou casar. Nada me anima `a festejar!
Nem mesmo minha estável condição hormonal.
Não me acho mais equilibrada emocionalmente.
Nem enrugada e muito menos mais sábia.
Fazer trinta, de repente, ficou sem graça.
Aliás, há pouco descobri que ser adulto é uma coisa chata.
Que os livros não bastam para nos distrair.
Muito menos as pessoas.
Que o paladar refina-se e para saborear verdadeiramente
algo com prazer, é preciso mais que dedicação.
Inclusive no sexo.
É aos trinta que percebemos que tudo se torna repetitivo.
Os filmes, as peças, as histórias de amor.
As mulheres continuam se odiando.
Mas, não deixam de trocar receitas.
De bolos `a cremes que andam usando ao redor dos olhos.
Já eu, não uso cremes.
Então, me dá o endereço do seu médico?
Eu não vou ao médico.
Do ortomolecular?
Posso te passar de um homeopata, mas não o recomendo...
Olha, eu tenho uma massagista ótima!
Por que, estou com cara de quem está tensa por acaso?!
E não está?
É... Culpa de uma enorme vontade vocacional para ser mãe
que anda me invadindo. E uma pequenina pressão social
que anima-me a prosseguir com esta vontade que
chega a me angustiar. E se eu não conseguir? Serei um fracasso maior!
_Luiza, vem deitar... Vem vá...
_Já vou amor. Já vou...
Desde os quatorze.
Mas nunca estive tão próxima de completar
esta idade. E agora que a data se aproxima, vejo
quanta bobagem já foi dita. Especialmente por mim.
Não acreditem em mim.
Sou volúvel. Absolutamente.
Terça feira, onze; é meu aniversário.
Não tenho vontade de festa, não tenho vontade de nada.
Quer dizer, tenho `as vezes, mas passa.
Sinto uma enorme preguiça.
Não dos amigos. Mas da função que é fazer aniversário.
Apagar a velinha. Atender a todos aqueles telefonemas,
abrir os presentes, gostar dos presentes, agradecer os presentes,
agradecer por terem vindo, fazer marmita de bolo para os mais
íntimos levarem calorias para casa, desfazer-se de todas as embalagens...
Meu Deus! Tragam-me os presentes sem embrulhar dessa vez!
Por que? Não achem-me mal humorada,
apesar de merecer este título de vez em quando.
Mas, não sinto que nenhuma mudança deva ser celebrada.
Só a da lei anti-fumo!
De resto, não mereço palmas, bexigas, e já sei bem com quem será
que vou casar. Nada me anima `a festejar!
Nem mesmo minha estável condição hormonal.
Não me acho mais equilibrada emocionalmente.
Nem enrugada e muito menos mais sábia.
Fazer trinta, de repente, ficou sem graça.
Aliás, há pouco descobri que ser adulto é uma coisa chata.
Que os livros não bastam para nos distrair.
Muito menos as pessoas.
Que o paladar refina-se e para saborear verdadeiramente
algo com prazer, é preciso mais que dedicação.
Inclusive no sexo.
É aos trinta que percebemos que tudo se torna repetitivo.
Os filmes, as peças, as histórias de amor.
As mulheres continuam se odiando.
Mas, não deixam de trocar receitas.
De bolos `a cremes que andam usando ao redor dos olhos.
Já eu, não uso cremes.
Então, me dá o endereço do seu médico?
Eu não vou ao médico.
Do ortomolecular?
Posso te passar de um homeopata, mas não o recomendo...
Olha, eu tenho uma massagista ótima!
Por que, estou com cara de quem está tensa por acaso?!
E não está?
É... Culpa de uma enorme vontade vocacional para ser mãe
que anda me invadindo. E uma pequenina pressão social
que anima-me a prosseguir com esta vontade que
chega a me angustiar. E se eu não conseguir? Serei um fracasso maior!
_Luiza, vem deitar... Vem vá...
_Já vou amor. Já vou...
Tuesday, July 14, 2009
Pensou nos primeiros 4 minutos do dia:
Daqui a pouco é agosto.
Gosto do frio quando está calor
e do calor quando está frio.
Nunca estou satisfeita!
Sexo de manhã me da preguiça de sair da cama.
Mas tudo bem porque cada dia é mais difícil de sair da cama.
Se fosse possível, hoje não saía da cama.
Ser adulto é chato.
É isso. Sair da cama cedo.
Não entendo como os adultos
conseguem ser adultos há tanto tempo.
E minha mãe que é adulta já há pelo menos 30 anos.
Coitada. Como ela aguenta?!
Acho que a solução é mesmo ter uns filhos.
Mas pensa, onde estariam agora?
Se Deus existir, bem bonzinho e me achar merecedora,
dará além de filhos, netos pra mim.
Tudo em seu tempo e em seu devido lugar.
Hoje vou caminhando. Definitivamente não gosto de dirigir.
Nem de me arrumar para casamentos.
Não me lembro do nome daquele
seu amigo que se casa no sábado.
Merda! Preciso lembrar do nome!
Preciso lembrar do nome!
Senão, de novo vou chegar na Cleusa Presentes
como fiz ontem e não saberei a que lista pertencemos.
Apesar de que, todas as listas devem ser meio iguais.
Milhares de pessoas se casam neste sábado.
É... Legal as pessoas casarem.
[um meio sorriso]
Ontem você teve uma espécie de ciúme.
É eu vi! Percebi! Tudo bem vá...
A noite vou fazer funcionar a nova máquina
de lavar que ocupa junto da velha toda nossa lavanderia.
Se é que posso chamar aquilo de lavanderia!
Vou colocar a máquina velha na sala.
Tipo decoração. É, uma solução.
É... Não vejo a hora de mudar.
Apesar disso nunca ter passado pela minha cabeça!
Parece perfeito.
Olha, estou bem humorada!
Obrigada, a culpa é sua!
Estou atrasada.
Merda!
Ainda tenho que passar na Cleusa,
me perder nas listas e comprar algo
com a cara de alguém que não conheço.
Queria mesmo é comprar uma bicicleta
e consequentemente um capacete.
Preciso ir ao médico,
mas vou tentando me consertar sozinha.
É meu jeito.
Xiii, está sangrando meu nariz.
Igual ontem. E amanhã, provavelmente.
Gostaria de respirar.
Mais e melhor.
Não é nada demais né?!
Só fazer o ar entrar.
E sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Gosto do frio quando está calor
e do calor quando está frio.
Nunca estou satisfeita!
Sexo de manhã me da preguiça de sair da cama.
Mas tudo bem porque cada dia é mais difícil de sair da cama.
Se fosse possível, hoje não saía da cama.
Ser adulto é chato.
É isso. Sair da cama cedo.
Não entendo como os adultos
conseguem ser adultos há tanto tempo.
E minha mãe que é adulta já há pelo menos 30 anos.
Coitada. Como ela aguenta?!
Acho que a solução é mesmo ter uns filhos.
Mas pensa, onde estariam agora?
Se Deus existir, bem bonzinho e me achar merecedora,
dará além de filhos, netos pra mim.
Tudo em seu tempo e em seu devido lugar.
Hoje vou caminhando. Definitivamente não gosto de dirigir.
Nem de me arrumar para casamentos.
Não me lembro do nome daquele
seu amigo que se casa no sábado.
Merda! Preciso lembrar do nome!
Preciso lembrar do nome!
Senão, de novo vou chegar na Cleusa Presentes
como fiz ontem e não saberei a que lista pertencemos.
Apesar de que, todas as listas devem ser meio iguais.
Milhares de pessoas se casam neste sábado.
É... Legal as pessoas casarem.
[um meio sorriso]
Ontem você teve uma espécie de ciúme.
É eu vi! Percebi! Tudo bem vá...
A noite vou fazer funcionar a nova máquina
de lavar que ocupa junto da velha toda nossa lavanderia.
Se é que posso chamar aquilo de lavanderia!
Vou colocar a máquina velha na sala.
Tipo decoração. É, uma solução.
É... Não vejo a hora de mudar.
Apesar disso nunca ter passado pela minha cabeça!
Parece perfeito.
Olha, estou bem humorada!
Obrigada, a culpa é sua!
Estou atrasada.
Merda!
Ainda tenho que passar na Cleusa,
me perder nas listas e comprar algo
com a cara de alguém que não conheço.
Queria mesmo é comprar uma bicicleta
e consequentemente um capacete.
Preciso ir ao médico,
mas vou tentando me consertar sozinha.
É meu jeito.
Xiii, está sangrando meu nariz.
Igual ontem. E amanhã, provavelmente.
Gostaria de respirar.
Mais e melhor.
Não é nada demais né?!
Só fazer o ar entrar.
E sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
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vida
Wednesday, July 01, 2009
Wednesday, April 29, 2009
Ser. Super. Artista.
O papel do artista é produzir e conceituar seu corpo de trabalho.
O suporte para isso já não mais importa.
A arte contemporânea não se restringe ao papel nem à tela.
Muito menos aos museus e galerias. A arte se democratizou
assumindo as ruas. Invadiu sua vida e você nem reparou.
Porque não tem tempo para parar e observar.
Assim como a maioria de nós que olha para tudo e pouco enxerga.
E tudo bem, este é também um dos papéis do artista. Podemos relaxar?
Intransferivelmente é do artista a responsabilidade de observar
e detalhar que lugar é este que nós ocupamos no agora.
Refletir sobre a sociedade em que vive. Em que vivemos todos nós.
E transportar para o papel, para tela, para um espaço específico
e ou interferir na arquitetura das cidades com sua arte em nossas vidas.
É aproximarmos do lúdico, dos sonhos, do que é real na visão dele, artista.
Do que parece à ele indispensável. Não que seja para a maior parte de nós.
Mas para ele, é assim que lhe parece, necessário.
Para isso o artista contemporâneo ocupa desde altas tecnologias,
celulares e GPSs até o espaço daquela praça que sempre existiu na rua de sua casa,
os edifícios e calçadas além dos lugares em que a arte previsivelmente reside,
os museus e galerias. Por vezes, o artista retira do nosso cotidiano
os hábitos e costumes, móveis e outros objetos levando-os para
esses grandes espaços de arte, desfuncionalizando-os e
instituindo a eles o peso da obra. Isto, desde Duchamp, percebeu?
Vá visitar os museus e galerias, só assim entenderá o que estou tentando dizer.
Na exposição em cartaz na Galeria Vermelho há um carro
logo na entrada totalmente remontado e por assim dizer,
destruído e ao mesmo tempo mumificado. A obra intitulada DRIVE THRU#2
é uma instalação que pertence ao artista Matheus Rocha Pitta
e foi elaborado a partir de dois carros do modelo Escort de anos e cores
diferentes que foram recombinados em um único objeto.
Sim, isto é arte! E normalmente vem acompanhado da seguinte
frase de um amigo meu:
_Nossa, até minha avó faz isto!
Faço cara de desprezo. Pois ele só fala isso porque sabe o quanto me irrita.
Compreenda de uma vez por todas que, com a interferência do artista
seja ela simples ou não, objetos de cena comum ganham o cobiçado
título de obra de arte. Mas quem é que decide o que é arte ou não?
Os críticos, galeristas e jornalistas. Todos em comum acordo dão seu aval.
E de repente, a arte está ali em plena Avenida Doutor Arnaldo,
dentro do hospital Emílio Ribas.
_Repare, são barracas iluminadas... É daquele artista...
_ O... Qual é mesmo o nome dele?
_É Eduardo Srur.
_Ah é! É dele! Chama-se Acampamento do Anjos e é arte, sabia?
Hoje em dia só não é expectador de arte quem não quer.
Basta olhar bem e reparar ao redor.
O artista nos chama atenção para aquilo que há de mais simples,
mas que por tamanha simplicidade, a maior parte de nós já não dá importância.
Ana Maria Tavares é uma das artistas que nos dá prova disso enquanto
ironiza a utilidade da própria arte. Oferece-nos amparo sob superfícies gélidas,
como o aço inox, fazendo-nos perceber o quanto escoramos nossos
corpos nestes móveis existentes nos locais mais públicos, sem constrangimento.
Os corpos precisam de apoio. Ela nos dá este apoio, mas muitas vezes
em desequilíbrio. E eu nunca havia me dado conta do quanto procuro
por encosto ao meu corpo até saber um pouco mais sobre o
trabalho dessa artista. Depois de conhecida as obras,
reparo-me no metrô, na fila do banco e até a forma como acomodo - me
frente a pia, para lavar a louça do jantar.
É quando a arte invade a vida e vice-versa.
O pouco tempo e a correria do dia-dia nos faz apenas
sobreviver em meio aos outros nas cidades.
Ao artista então, cabe a função de refletir sobre o
meio em que vivemos e devolver a este mesmo mundo o que existe
nele que se valha repensar em outros formatos estéticos ou não
e que chamaremos a partir de então de arte.
Os olhos do artista enxergam coisas que nossos olhos não vêem.
Normalmente, escampam-nos. Não que ele tenha super poderes.
Mas é papel do artista treinar seu olhar,
assim como cabe ao corredor correr e ao pugilista lutar.
Ao artista cabe a função de nos detalhar.
Pausar, pensar, escrever, estudar, ler, desenhar, projetar, fotografar.
Chamar até engenheiros se preciso for, para transportar o que há de sensível
dentro de si para todos nós, o público. Um exemplo disso é o trabalho do artista
Marcius Galan exposto na mostra Nova Arte Nova no Centro Cultural Banco do Brasil
em que fez uma instalação dando-nos a impressão de que há
ali um vidro esverdeado, desses blindex. Mas é pura ilusão.
Uma fantástica mentira. E para perceber isso é preciso tocar na obra.
Tocar no nada.
_Mas tocar nas obras não é proibido?
_Neste caso não.
É... Sei que não é assim tão simples.
Cabe a nós apreciadores da arte tentar
deixar-nos seduzir pelos trabalhos do artista.
E a este cabe ainda se interar com o que há de novo.
Se atualizar. Perceber as novidades que são muitas nos dias de hoje.
Inúmeras. Rápidas e fugazes. E tomar o cuidado de não
ser só mais uma dessas novidades
que vem e vão na mesma velocidade.
Ao artista será preciso mais que fôlego de corredor
para acompanhar o que a maioria de nós não quer perder tempo em pensar.
Ou não se permite sentir. Ou não consegue.
E depois, resta a ele a tarefa de produzir.
Incessantemente como treina um lutador.
Continuamente.
Produzir uma vida inteira.
Para um dia o conjunto de suas obras falar por si só.
O suporte para isso já não mais importa.
A arte contemporânea não se restringe ao papel nem à tela.
Muito menos aos museus e galerias. A arte se democratizou
assumindo as ruas. Invadiu sua vida e você nem reparou.
Porque não tem tempo para parar e observar.
Assim como a maioria de nós que olha para tudo e pouco enxerga.
E tudo bem, este é também um dos papéis do artista. Podemos relaxar?
Intransferivelmente é do artista a responsabilidade de observar
e detalhar que lugar é este que nós ocupamos no agora.
Refletir sobre a sociedade em que vive. Em que vivemos todos nós.
E transportar para o papel, para tela, para um espaço específico
e ou interferir na arquitetura das cidades com sua arte em nossas vidas.
É aproximarmos do lúdico, dos sonhos, do que é real na visão dele, artista.
Do que parece à ele indispensável. Não que seja para a maior parte de nós.
Mas para ele, é assim que lhe parece, necessário.
Para isso o artista contemporâneo ocupa desde altas tecnologias,
celulares e GPSs até o espaço daquela praça que sempre existiu na rua de sua casa,
os edifícios e calçadas além dos lugares em que a arte previsivelmente reside,
os museus e galerias. Por vezes, o artista retira do nosso cotidiano
os hábitos e costumes, móveis e outros objetos levando-os para
esses grandes espaços de arte, desfuncionalizando-os e
instituindo a eles o peso da obra. Isto, desde Duchamp, percebeu?
Vá visitar os museus e galerias, só assim entenderá o que estou tentando dizer.
Na exposição em cartaz na Galeria Vermelho há um carro
logo na entrada totalmente remontado e por assim dizer,
destruído e ao mesmo tempo mumificado. A obra intitulada DRIVE THRU#2
é uma instalação que pertence ao artista Matheus Rocha Pitta
e foi elaborado a partir de dois carros do modelo Escort de anos e cores
diferentes que foram recombinados em um único objeto.
Sim, isto é arte! E normalmente vem acompanhado da seguinte
frase de um amigo meu:
_Nossa, até minha avó faz isto!
Faço cara de desprezo. Pois ele só fala isso porque sabe o quanto me irrita.
Compreenda de uma vez por todas que, com a interferência do artista
seja ela simples ou não, objetos de cena comum ganham o cobiçado
título de obra de arte. Mas quem é que decide o que é arte ou não?
Os críticos, galeristas e jornalistas. Todos em comum acordo dão seu aval.
E de repente, a arte está ali em plena Avenida Doutor Arnaldo,
dentro do hospital Emílio Ribas.
_Repare, são barracas iluminadas... É daquele artista...
_ O... Qual é mesmo o nome dele?
_É Eduardo Srur.
_Ah é! É dele! Chama-se Acampamento do Anjos e é arte, sabia?
Hoje em dia só não é expectador de arte quem não quer.
Basta olhar bem e reparar ao redor.
O artista nos chama atenção para aquilo que há de mais simples,
mas que por tamanha simplicidade, a maior parte de nós já não dá importância.
Ana Maria Tavares é uma das artistas que nos dá prova disso enquanto
ironiza a utilidade da própria arte. Oferece-nos amparo sob superfícies gélidas,
como o aço inox, fazendo-nos perceber o quanto escoramos nossos
corpos nestes móveis existentes nos locais mais públicos, sem constrangimento.
Os corpos precisam de apoio. Ela nos dá este apoio, mas muitas vezes
em desequilíbrio. E eu nunca havia me dado conta do quanto procuro
por encosto ao meu corpo até saber um pouco mais sobre o
trabalho dessa artista. Depois de conhecida as obras,
reparo-me no metrô, na fila do banco e até a forma como acomodo - me
frente a pia, para lavar a louça do jantar.
É quando a arte invade a vida e vice-versa.
O pouco tempo e a correria do dia-dia nos faz apenas
sobreviver em meio aos outros nas cidades.
Ao artista então, cabe a função de refletir sobre o
meio em que vivemos e devolver a este mesmo mundo o que existe
nele que se valha repensar em outros formatos estéticos ou não
e que chamaremos a partir de então de arte.
Os olhos do artista enxergam coisas que nossos olhos não vêem.
Normalmente, escampam-nos. Não que ele tenha super poderes.
Mas é papel do artista treinar seu olhar,
assim como cabe ao corredor correr e ao pugilista lutar.
Ao artista cabe a função de nos detalhar.
Pausar, pensar, escrever, estudar, ler, desenhar, projetar, fotografar.
Chamar até engenheiros se preciso for, para transportar o que há de sensível
dentro de si para todos nós, o público. Um exemplo disso é o trabalho do artista
Marcius Galan exposto na mostra Nova Arte Nova no Centro Cultural Banco do Brasil
em que fez uma instalação dando-nos a impressão de que há
ali um vidro esverdeado, desses blindex. Mas é pura ilusão.
Uma fantástica mentira. E para perceber isso é preciso tocar na obra.
Tocar no nada.
_Mas tocar nas obras não é proibido?
_Neste caso não.
É... Sei que não é assim tão simples.
Cabe a nós apreciadores da arte tentar
deixar-nos seduzir pelos trabalhos do artista.
E a este cabe ainda se interar com o que há de novo.
Se atualizar. Perceber as novidades que são muitas nos dias de hoje.
Inúmeras. Rápidas e fugazes. E tomar o cuidado de não
ser só mais uma dessas novidades
que vem e vão na mesma velocidade.
Ao artista será preciso mais que fôlego de corredor
para acompanhar o que a maioria de nós não quer perder tempo em pensar.
Ou não se permite sentir. Ou não consegue.
E depois, resta a ele a tarefa de produzir.
Incessantemente como treina um lutador.
Continuamente.
Produzir uma vida inteira.
Para um dia o conjunto de suas obras falar por si só.
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