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Wednesday, September 02, 2009

Contratempo.

Ela estava tão alegre que sentia vergonha.
Na rua, disfarçava. Tampando a boca para que ninguém visse
o quanto estava rindo à toa.
Sentia culpa por estar feliz.

_Como assim, feliz?
Não tem o menor cabimento...

Não queria chamar atenção por esta razão.
Logo ela, cética.
Logo aquela que sempre achou a vida penosa demais.
Agora andava por aí, sorrindo largo.
Não acreditava nessa possibilidade, nem nas pessoas.
Ela não tinha crença alguma e
zombava de toda e qualquer esperança.
Era dura.
Feito pedra.
Amarga igual remédio.
Sentia falta de ar,
mas também não fazia tanta questão
em respira as impurezas da cidade.
Conformada com sua teoria de que as
pessoas dão aquilo que podem dar,
estava acomodada com tudo ao seu redor.
Num tanto faz, num leva e traz, no chove não molha.
Esperando a vida passar aos finais de semana.
Despreocupada com o tempo, com o vento,
saía sempre sem o guarda-chuva e o casaco.
Molhava-se e mesmo assim era incapaz
de perceber as horas. Mesmo passando frio
ou tendo que colocar as roupas no varal
que ficava numa pequena varanda em um
também pequeno apartamento.
Onde ela vivia só.
Triste em seu quarto, lendo o livro que
escolhera demoradamente nas prateleiras
da livraria que freqüentava.

Até que um dia, lá na livraria,
ela escolhia mais um romance para
viver em palavras quando uma mão maior
que a sua pegou o objeto retangular em questão.
A capa era amarela.
Estavam bem próximos um do outro
e ele percebeu que ela estava desejando-o.
Não a ele, mas o livro que carregava.

_Desculpe, qual o seu nome?

_Por que?

_É realmente, me perdoe, não quero ser invasivo.
Gostaria de saber seu nome...

_Ana.

_Oi Ana, vi que você ficou...
Bem, como vou te dizer... É...
Você por acaso estava querendo este livro aqui?
(disse isso chacoalhando o livro em sua frente,
como se ela fosse um cachorro e o livro um enorme osso).

Irrefutavelmente ela só balançou a cabeça num não.
Os cabelos dele, despenteados prendiam
os olhos dela, bem no alto.
Vestia camisa xadrez, jeans e all star azul.
Ela também, xadrez, jeans e all star vermelho.
Mesmo observando todos os detalhes nele,
que tinha sardas nas orelhas por exemplo
e que elas também habitavam seu cotovelo,
Ana preferiu ignorá-lo.

_Ah, ok. Acho que me enganei.

E quando ele já virava de costas ouviu um:

_Não...

_Hã?

_É verdade, este seria o meu livro escolhido de hoje.
Mais pela cor. Sabe, ainda não li a orelha,
então acho que tudo bem, posso não querê-lo.
Eu viverei sem ele. Lógico, já tenho idade suficiente
para saber que vou sobreviver e
acho até que eu não iria gostar muito...
Então pode ficar, é isso, é seu, todo seu...

_Calma querida, está nervosinha?
Teve um mal dia ou você é assim sempre?
Espere, deixe-me falar! Com calma, sim?!

Ele disse isso num sorriso apreensivo e engatou
logo após um suspiro longo.

_Então... Faremos assim, vou comprá-lo
porque este é também o meu escolhido,
também pela cor, enfim...
Você me passa seu telefone que assim
que eu terminar de ler, te empresto.

_Sei. E quando será isso?

_Logo, quero te ver logo...

Ela sorriu. Pegou uma caneta
(sempre tinha uma na bolsa) e
escreveu na contra capa do livro amarelo seu telefone.
Saiu em seguida, meio descrente.
Segurou com dureza a felicidade que queria
sair de dentro do peito. Afinal, não acreditava
em nada daquilo que o frio na barriga tentava alertar.

Há quem ache até que foi uma cena de puro desprezo.
Assim me confidenciou um dos funcionários
da livraria que assistiu a tudo de longe,
torcendo para ela amolecer, adoçar e se entregar.

Não sabe ele que desde o telefonema,
na mesma noite em que houve o encontro casual
na livraria, aliás, apenas algumas poucas horas
depois do ocorrido, assim, como mágica, a menina virou açúcar.
Graças àquele quase desconhecido, com sardas nas orelhas e no cotovelo,
que leu o primeiro capítulo inteiro para ela ao telefone.
Foram as 34 páginas mais felizes e rápidas de sua vida.
Passaram num instante impregnando nos lábios dela
um sorriso impossível de tirar ou disfarçar.
Foi aí que ela se deu conta de que o amor faz o tempo voar.
Mas quem se importa?

Tuesday, July 14, 2009

Pensou nos primeiros 4 minutos do dia:

Daqui a pouco é agosto.
Gosto do frio quando está calor
e do calor quando está frio.
Nunca estou satisfeita!
Sexo de manhã me da preguiça de sair da cama.
Mas tudo bem porque cada dia é mais difícil de sair da cama.
Se fosse possível, hoje não saía da cama.
Ser adulto é chato.
É isso. Sair da cama cedo.
Não entendo como os adultos
conseguem ser adultos há tanto tempo.
E minha mãe que é adulta já há pelo menos 30 anos.
Coitada. Como ela aguenta?!
Acho que a solução é mesmo ter uns filhos.
Mas pensa, onde estariam agora?
Se Deus existir, bem bonzinho e me achar merecedora,
dará além de filhos, netos pra mim.
Tudo em seu tempo e em seu devido lugar.
Hoje vou caminhando. Definitivamente não gosto de dirigir.
Nem de me arrumar para casamentos.
Não me lembro do nome daquele
seu amigo que se casa no sábado.
Merda! Preciso lembrar do nome!
Preciso lembrar do nome!
Senão, de novo vou chegar na Cleusa Presentes
como fiz ontem e não saberei a que lista pertencemos.
Apesar de que, todas as listas devem ser meio iguais.
Milhares de pessoas se casam neste sábado.
É... Legal as pessoas casarem.
[um meio sorriso]
Ontem você teve uma espécie de ciúme.
É eu vi! Percebi! Tudo bem vá...
A noite vou fazer funcionar a nova máquina
de lavar que ocupa junto da velha toda nossa lavanderia.
Se é que posso chamar aquilo de lavanderia!
Vou colocar a máquina velha na sala.
Tipo decoração. É, uma solução.
É... Não vejo a hora de mudar.
Apesar disso nunca ter passado pela minha cabeça!
Parece perfeito.
Olha, estou bem humorada!
Obrigada, a culpa é sua!
Estou atrasada.
Merda!
Ainda tenho que passar na Cleusa,
me perder nas listas e comprar algo
com a cara de alguém que não conheço.
Queria mesmo é comprar uma bicicleta
e consequentemente um capacete.
Preciso ir ao médico,
mas vou tentando me consertar sozinha.
É meu jeito.
Xiii, está sangrando meu nariz.
Igual ontem. E amanhã, provavelmente.
Gostaria de respirar.
Mais e melhor.
Não é nada demais né?!
Só fazer o ar entrar.
E sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.
Ar entrar, ar sair.